Friday, November 20, 2009

Fotos - Parte 2


Vivo minha vida por fotos. Não porquê gosto, mas por não ter outra opção. Nos momentos em que o tédio e o ostracismo são tão reais que quase se transformam em algo sólido, as fotos te fazem lembrar o que é, de fato, a realidade. A beleza do que é real, do toque, dos diálogos, da brisa em seu rosto, do verde das paisagens.

Você quase sente o cheiro das coisas. Dá para quase ouvir as vozes das pessoas. Um mini teletransporte para as melhores ocasiões da sua vida.

Pois viver é exatamente isso: compartilhar sua felicidade com quem você mais gosta. O resto da sua vida...bom...o resto é tudo mecânico, automático, impessoal. Mesmo que seja oitenta por cento de toda sua existência. E ninguém precisa de foto para essas coisas.

André Marçal.

Tuesday, November 10, 2009

Diálogos

Você disse que eu não devia me preocupar tanto assim. Só porque você ia embora não significava que eu não iria conhecer mais pessoas.

Eu disse que era verdade, sim. Provavelmente eu iria conhecer mais dezenas de pessoas. Mas, essas pessoas não são você. E isso faz toda a diferença.

Wednesday, October 28, 2009

Fotos - Parte 1


Eu até tento, mas não consigo evitar. Sempre me pego vendo fotos. Mais especificamente, fotos em que você aparece. Vou pulando rapidamente aquelas que não me interessam, até achar uma em que você está. E, de repente, as coisas parecem ter sentido. Tudo se torna mais tranquilo, e o que parecia ser entediante se transforma no mais interessante.


Começo a sentir uma mistura de nostalgia e arrependimento, imediatamente seguida por uma frustração. Imagino você ainda por perto, e eu dizendo tudo aquilo que eu não disse. Imagino o seu sorriso de surpresa. Imagino nós dois em todos os lugares novamente. Imagino os nossos planos. Imagino momentos de paz de espírito.

Então, é hora de guardar as fotos.
E tudo volta ao normal...até o momento em que eu me pegar vendo fotos novamente. Suas fotos, especificamente...

André Marçal

Saturday, October 24, 2009

Realidade ficcional


Ele era do tipo que ensaiava algumas histórias. Pegava a caneta, abria o caderno e tentava preencher as linhas com alguma coisa que fosse relativamente interessante.

Era um apaixonado por ficção. Ele admirava todos os que conseguiam deixar o enredo tão interessante, a ponto de negligenciar todos os aspectos da vida só para saber o que vai acontecer em seguida.

Ele não via tanta graça na realidade. Tanto na do mundo e, principalmente, na sua própria. Tudo parecia tão mais interessante e intenso na realidade ficcionada! Mais cores, mais música, mais paixão...Na vida real, tudo em preto e branco, silencioso, sem amor...

Um dia, disseram a ele que a solução para isso era escrever exatamente sobre aquilo que ele não vivia. Viver a vida através das histórias. Ou ainda: contar aquilo que ele viveu e melhorar através da escrita.

E o melhor disso tudo era que ninguém jamais saberia a verdade. Ninguém conseguiria enxergar o limite entre a verdade e a ficção. Só ele. E, se a vida parecia não ter mistérios, esse seria o dele.

Só dele.


André Marçal

Friday, October 16, 2009

Desentendimentos

Certa vez disseram que ele deveria ser sempre verdadeiro. Sempre que possível, ele deveria dar opiniões sinceras sobre qualquer assunto. E se perguntassem sobre o que ele mais amava, ele deveria responder com o maior dos entusiasmos. Porque amor deveria ser contagioso. Deveria inspirar as pessoas. Amor teria que ser compartilhado, não?

Mas...quanto mais ele vivia, mais ele percebia que amor era algo em falta. Ao que parecia, as pessoas não amavam nada. O que existia era uma confusão. Era amor disfarçado de carência, falta de auto-estima. Algo momentâneo.

E que se mostrar verdadeiramente era campo propício para desentedimentos e incompreensões.

Ele leu em um livro: "There is, he thought, so little love in the world". E ele concordou.

André Marçal

Friday, October 09, 2009

Rasante



De repente, ele se dá conta que existem dois tipos de pessoas: aquelas que, por alguma razão incompreensível, tudo gira ao redor e que são capazes de fazer tudo do mais incrível acontecer; e aquelas que são exatamente o oposto.

E, por mais que ele negasse, por mais que ele tentasse esconder (principalmente de si mesmo), chega um momento na vida de todos que negação é um luxo, pois o tempo passa rápido, e a juventude vai indo embora mais depressa do que se espera.

Ele pertencia ao último grupo de pessoas.

Mais do que isso, ele percebe exatamente o tipo de pessoa que ele é. Idealizações são infantis, e embora a realidade possa parecer dura no começo, ele consegue notar uma certa liberdade nisso tudo.

Sem mais falsas esperanças. Sem mais expectativas exageradas. Tudo o que resta a ele, agora, é uma vida em que a beleza se encontra apenas naquilo que ele é capaz.

Um voô com as suas próprias asas, mesmo que seja apenas rasante.

André Marçal

Saturday, September 19, 2009

Qual segredo?


Ele observava a atitude de todos. Gostava particularmente de analisar as atitudes perante a vida daqueles que ele mais admirava. Ele esperava aprender alguma coisa valiosa dessas pessoas. Queria entender como é que elas conseguiam fazer tudo aquilo que elas sempre desejavam sem obstáculo algum, sem auto-sabotagem alguma, sem dificuldades auto-impostas. Porque ele não tinha mais idéia de como ser assim. Já andava cansado das tentativas, todas mal-sucedidas, de ser exatamente dessa forma: um verdadeiro explorador da vida. Destemido e totalmente determinado. Mas, sempre existia alguma coisa...algo misterioso que o impedia. E ele queria descobrir qual era o segredo.

Ele buscava, então, em todas essas pessoas que eram o oposto exato dele.
Ás vezes, ele quase chegava a uma conclusão definitiva. Pensava que, em muitas coisas dessa vida, simplesmenta não havia sentido algum. As coisas são porque são. Nada mais do que isso. Talvez essas pessoas não tenham tantas idealizações românticas sobre tudo, e consigam enxergar uma certa beleza nas coisas mais simples da vida.

E talvez ele fosse explorador, sim. Nem sempre dos mistérios da vida, como ele sempre desejou. Mas, da alma. E quem sabe alguém também o observasse, tentando aprender alguma coisa...?

André Marçal